mais que
um pouco bizarro.
Jory ergueu o gibão e Ned enfiou as mãos pelas
cavas.
- Lorde Stannis talvez regresse para o torneio de
Robert - disse, enquanto Jory lhe atava a peça de
roupa nas costas.
- Isso seria um golpe de sorte, senhor - Jory
respondeu.
Ned afivelou uma espada à cintura.
- Em outras palavras, não é provável - seu sorriso
era sombrio.
Jory enrolou o manto de Ned em torno de seus
ombros e o prendeu ao pescoço com o distintivo da
Mão do Rei.
- O armeiro vive em cima de sua loja, numa casa
grande que se ergue no topo da Rua do Aço. Alyn
conhece o caminho, senhor.
Ned acenou com a cabeça.
- Que os deuses ajudem aquele ajudante de teberna
se estiver me fazendo correr atrás de sombras - não
seria grande coisa como apoio, mas o Jon Arryn que
Ned Stark conhecera não era alguém que usasse
armaduras incrustadas de jóias e prata. Aço era aço;
destinava-se à proteção, não à ostentação. Era
verdade que podia ter mudado de ponto de vista.
Certamente não seria o primeiro homem a olhar de
forma diferente para as coisas depois de alguns anos
passados na corte..., mas a mudança era
suficientemente marcada para levantar dúvidas em
Ned.
- Há mais algum serviço que eu lhe possa prestar?
- Suponho que é melhor que comece a visitar
prostíbulos.
- Penoso dever, senhor - Jory sorriu, - Os homens
ficarão felizes por ajudar. Porther já fez cm bom
começo.
O cavalo preferido de Ned estava selado e à espera
no pátio. Varly e Jacks puseram-se a seu lado
quando avançou pelo pátio. Seus capacetes de aço e
cotas de malha deviam estar abrasadores, mas não
soltaram uma palavra de queixa. Quando Lorde
Eddard passou sob o Portão do Rei e entrou no fedor
da cidade, com o manto cinza e branco pendendo de
seus ombros, viu olhos em roda a parte e esporeou a
montaria até um trote. Os guardas o seguiram.
Foi olhando para trás com frequência enquanto
abriam caminho pelas ruas cheias de gente da
cidade. Tomard e Desmond tinham deixado o castelo
mais cedo, de manhã, a fim de tomar posições no
caminho que devia percorrer e verificar se alguém os
seguia, mas mesmo assim Ned não se sentia
confiante. A sombra da Aranha do Rei e dos seus
passarinhos o deixava inquieto como uma donzela na
noite de núpcias.
A Rua do Aço começava na praça do mercado, ao
lado do Portão do Rio, como era chamado nos
mapas, ou Portão da Lama, o nome que recebia
habitualmente. Um saltimbanco sobre pernas de pau
caminhava por entre a multidão como um grande
inseto, arrastando uma horda de crianças descalças
aos gritos. Noutro lugar, dois rapazes esfarrapados
que não eram mais velhos que Bran duelavam com
paus, perante o sonoro encorajamento de alguns e as
furiosas pragas de outros. Uma velha acabou com a
competição ao se debruçar em uma janela e despejar
um balde de restos de cozinha sobre a cabeça dos
combatentes, A sombra da muralha, agricultores
berravam ao lado de suas carroças: "Maçãs, as
melhores maçãs, baratas, metade do preço"; Melões-
de-sangue, doces como mel"; "Nabos, cebolas, raízes,
aqui tem, aqui, aqui temos nabos, cebolas, raízes,
aqui tem".
O Portão da Lama estava aberto e um esquadrão de
Patrulheiros da Cidade vestidos com seus mantos
dourados apoiava-se nas lanças sob a porta levadiça.
Quando uma coluna de homens a cavalo apareceu
vinda do leste, os guardas desataram numa atividade
frenética, gritando ordens e afastando as carroças e o
tráfego pedestre a fim de deixar entrar o cavaleiro e
sua escolta. O primeiro cavaleiro a entrar pelo
portão transportava um longo estandarte negro. A
seda ondeava ao vento como uma coisa viva; o tecido
estava ornado com um céu noturno cortado por um
relâmpago de cor púrpura.
- Abram alas para Lorde Berid - gritou o cavaleiro. -
Abram alas para Lorde Beric! - e logo atrás vinha o
jovem senhor em pessoa, uma fogosa figura montada
num corcel negro, de cabelos ruivos alourados,
vestindo um manto de cetim negro pontilhado de
estrelas.
- Veio para lutar no torneio da Mão, senhor? -
gritou-lhe um guarda.
- Vim para ganhar o torneio da Mão - gritou Lorde
Beric de volta por entre as aclamações da multidão.
Ned virou as costas à praça onde a Rua do Aço
começava e seguiu seu trajeto sinuoso por uma longa
colina acima, passando por ferreiros que
trabalhavam em forjas abertas, cavaleiros livres que
regateavam os preços de cotas de malha e grisalhos
ferrageiros que vendiam lâminas e navalhas velhas
em suas carroças. Quanto mais subiam, maiores iam
ficando os edifícios. O homem que procuravam
encontrava-se no ponto mais alto da colina, numa
enorme casa de madeira e estuque, cujos andares
superiores pairavam por cima da rua estreita. As
portas duplas mostravam uma cena de caça
esculpida em ébano. Um par de cavaleiros de pedra
montava guarda à entrada, envergando armaduras
extravagantes de aço vermelho polido que os
transformavam num grifo3 e num unicórnio. Ned

3 Animal com cabeça, bico e asas de águia e corpo de leão. Ser fabuloso, como o unicórnio.
(N. T.)
deixou o cavalo com Jacks e abriu caminho à força
de seu ombro até o inter